Ponto. Porém, nada, nem as risadas fora de hora conseguiram atrapalhar a belíssima montagem feita por Chico Cardoso. Utilizando em alguns momentos o metateatro, o diretor apresenta à platéia um palco limpo, despido, mesmo, com uma iluminação primorosa, uma coreografia coordenada e moderna. Além, é claro, dos atores da Cia de Teatro Apareceu a Margarida. Show certo.
Para quem viu Michel Guerrero em “A Herança Maldita de Mercedita de La Cruz” em que o ator faz a hilária Jéssica, a sua transformação em Décio, o marido possivelmente impotente, é digna de aplausos. Domínio de cena e de palco, Michel dá ao personagem a verdadeira importância que Nelson quer: a impotência humana que só se sente bem entre pessoas de classe inferior. Rosa Malagueta, a lavadeira que tira a virgindade de Décio, não abusa da sua veia cômica e trilha por uma dramaticidade exemplar. Sonoplastia
A escolha das músicas brasileiras, que falam de paixão, traição, morte, embalam a peça e surgem para dar um certo alívio nos momentos mais dramáticos do texto. Sem ser piegas, pelo contrário, Chico Cardoso une o tom melódico com as coreografias, dando o ar de modernidade que a peça necessita. Um casamento perfeito.
E para os céticos que não gostam de Nelson Rodrigues, pasmem, o Teatro Amazonas estava lo-ta-do! Gente voltando por falta de ingresso. Ponto para o festival. Parabéns pela coragem de Chico Cardoso.
História, preservação e linguagem jovem Jony Clay Borges Da equipe de A CRÍTICA Primeiro espetáculo da Mostra Competitiva Infantil do FTA, “Angatu, a árvore milenar” traz uma mensagem de preservação baseada nas lições da História da região, e apresentada numa linguagem juvenil e descolada. A montagem é do Grupo de Teatro e Dança Origem, com texto e direção de Chico Cardoso. O espetáculo é protagonizado por três crianças: João da Luz (André Seixas), Ester (Ketlen Neves) e Cacá (Vitor Hugo). A história começa quando João fala aos amigos sobre uma árvore gigante e antiga, prestes a ser destruída pela construção de uma estrada que interligará toda a região. Decididos a conhecer a árvore ameaçada, eles arranjam uma desculpa para ir ao município mais próximo e ir encontrá-la no interior da floresta.
Uma vez lá, a árvore Angatu (Michel Guerrero) leva os três jovens ao mundo das fábulas, onde seres humanos e vegetais podem conversar como iguais. Eles ficam indignados com o destino da árvore e prometem lutar para evitar sua derrubada. Por sua vez, Angatu – cujo nome significa “felicidade” ou “boa alma”, em tupi-guarani – conta aos jovens sobre o índio Ajuricaba e sobre a Cabanagem, também personagens e histórias de resistência contra a invasão da floresta.
Chico Cardoso exibe em “Angatu” seu talento em falar a linguagem do público juvenil, tanto no texto quanto na encenação dos personagens infantis. A juventude do elenco ajuda: à exceção de Guerrero, todos os atores e dançarinos – Rogério Mendes, Evandro Caboverde, Maicon Pantoja, Darison Costa, Gabriel Rebelo, Raílson Amâncio – são adolescentes. Como Angatu, Guerrero tem as falas mais poéticas do texto (“Sou mais antiga que o papel, que o fogo, que a palavra”, diz a árvore), mas também as mais discursivas, algo parcialmente compensado com toques de humor.
É evidente também a preocupação com o gestual dos atores e com a coreografia (assinada por Cardoso e Rogério Mendes). Do comportamento adolescente típico dos garotos aos movimentos simbólicos dos dançarinos, tudo parece resultar de uma cuidadosa elaboração no palco.
O ponto mais fraco da montagem são os cenários, por demais modestos. Mas a cenografia ainda tem momentos de destaque, por exemplo, nas cenas que narram os episódios de Ajuricaba ou da Cabanagem, que dão a impressão de uma projeção no fundo do cenário, vista entre as silhuetas dos meninos e da árvore.
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